Acreditei por muito tempo que crescer na veterinária era subir uma escada.

Acreditei por muito tempo que crescer na veterinária era subir uma escada.

Cada degrau, um título. Cada degrau, um certificado na parede. E lá no topo, o sucesso me esperando ou pelo menos era isso que me diziam.

Hoje vejo que estava construindo um castelo sobre areia.

Quanto mais eu me especializava, mais estreito ficava meu olhar. Conhecia cada vez mais sobre cada vez menos. O filósofo Ortega y Gasset tem um nome preciso para isso: o “sábio-ignorante”. Aquele que domina um canto do mundo e perde o resto de vista.

E o resto, na nossa profissão, é tudo o que importa: o responsável angustiado, a equipe cansada, a decisão ética que não cabe em protocolo, o animal que não responde ao livro-texto.

Nós veterinários aprendemos a usar antolhos. Foco no técnico, fora o humano. Mas em liderança, antolhos são fatais. Te impedem de ver que a clínica é um sistema vivo, imprevisível, emocional, complexo.

O texto que escrevi é sobre tirar essas viseiras. Sobre escolher a verdade quando ela dói, em vez do conforto quando ele mente. Sobre descer do pedestal do diploma e olhar a realidade de frente.

Não é um manual. É um espelho.

Marcio Mota.

Marcio Mota

Médico veterinário, docente convidado FGV, palestrante, consultor, Presidente ANMV, Presidente da Comissão de Clínicos de pequenos animais CRMV SP e liderança do associativismo (AMVGABC, ABHV e FEREVESP).