Abelhas e pessoas: uma doce aliança que não é apenas mel.

Abelhas e pessoas: uma doce aliança que não é apenas mel.

Bioempreendimento “Abejita Longeva”, do Equador, que desenvolveu um sistema solidário de comercialização de seus produtos © FAO/Paula Lanata.

Todo 20 de maio é comemorado o Dia Mundial das Abelhas, uma oportunidade para compreender o vínculo que existe entre as pessoas e os polinizadores. Para a FAO, trata-se de comunidade, cuidado e conservação da natureza, assim como de alimentação para o presente e o futuro da humanidade.

As abelhas e outros polinizadores são essenciais para a vida. Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cerca de 75% das culturas alimentares dependem deles, especialmente frutas e hortaliças. No mundo existem aproximadamente 25 mil espécies de abelhas, presentes em todos os continentes exceto na Antártica, muitas das quais enfrentam atualmente ameaças crescentes, como a mudança do clima, a perda de habitat, o uso indiscriminado de agroquímicos e a expansão de pragas e doenças.

Na América Latina e no Caribe, o trabalho dos polinizadores ocorre de maneira silenciosa, mas essencial. Entre florestas, montanhas e fontes de água, as abelhas não apenas produzem mel: sustentam ecossistemas, regeneram paisagens e, sobretudo, seu uso sustentável promove a cooperação entre pessoas e comunidades, principalmente em áreas rurais.

Do México até a Patagônia argentina, as abelhas estão no centro de vivências de trabalho coletivo, autonomia econômica e liderança feminina. As histórias de quem convive com elas nos ensinam a aprender com a natureza, a utilizá-la de forma sustentável, a trabalhar por meio de ações coletivas, a cuidar e a compartilhar.

Mestras do trabalho comunitário As abelhas vivem em sociedades altamente organizadas, nas quais cada indivíduo cumpre um papel específico para o bem-estar do conjunto. Esse modelo tem inspirado muitas comunidades humanas a repensar suas práticas produtivas e sociais.

Em Neuquén, Argentina, após um programa de capacitação, um grupo de 12 pessoas — em sua maioria mulheres — recebeu duas colmeias cada ao final do processo formativo.

“Agrupamos todas e fizemos um único apiário”, explica Laura Ponulef, uma das integrantes do grupo. Assim nasceu Kume Ziwlliñ Mapu, que significa “bom território da abelha” e reflete o vínculo entre a atividade apícola e o cuidado com o entorno.

“Aprendemos muito com as abelhas. Elas têm uma organização impressionante e nos ensinam a trabalhar de maneira mais comunitária”, reflete Laura.

Essa inspiração as levou a fortalecer sua atividade por meio do Projeto Pagamentos por Resultados de REDD+ da Argentina, implementado pela FAO com financiamento do Fundo Verde para o Clima, incluindo a construção de um espaço comunitário para trabalho, armazenamento de materiais e encontro coletivo. Esse espaço permite não apenas consolidar e aprimorar a produção, mas também reunir-se, tomar decisões e gerar novas oportunidades econômicas de forma conjunta.

Rumo ao Equador, ao sul do país, aproveitando paisagens florestais e produtivas na zona de amortecimento do Parque Nacional Podocarpus — uma área de alta biodiversidade — surgiu “Abejita Longeva” (Abelhinha Longeva, em português), um bioempreendimento que promove a cooperação entre apicultores e proprietários de terras por meio da instalação de colmeias. Atualmente, conta com 85 famílias participantes.

Ruth Guamán é uma de suas integrantes. Com orgulho, destaca que “Abejita Longeva” hoje possui produção sustentável e um sistema solidário de comercialização que inclui torrões, sabonetes naturais, velas e geleias. Com o apoio do Mecanismo para Florestas e Fazendas (FFF) da FAO, aprenderam novas técnicas de produção e transformação do mel. “Temos a confiança de que vamos gerar melhores oportunidades para jovens, homens e mulheres do setor, enquanto cuidamos do meio ambiente e do Podocarpus com nosso delicioso mel”, destaca.

Em ambos os casos, o aprendizado é claro: as abelhas não apenas produzem mel, também ensinam a se organizar, cooperar e pensar no bem-estar coletivo.

Abelhas nativas na América Latina e no Caribe: as melíponas

Ao lado da apicultura tradicional, existe uma riqueza menos conhecida, mas igualmente crucial: as abelhas nativas sem ferrão, conhecidas como melíponas. Essas espécies, próprias da região e presentes em florestas tropicais e subtropicais, convivem há séculos com as comunidades humanas, integrando sistemas produtivos, culturais e ecológicos.

Na Reserva da Biosfera La Frailescana, em Chiapas, México, Alondra Martínez caminha entre flores que ela mesma plantou, colorindo a paisagem e a vida das abelhas. “Plantamos flores para que as abelhas não precisem ir longe e permaneçam por perto”, conta.

Junto a um grupo de mulheres e homens, ela transformou a meliponicultura em uma alternativa produtiva e também em uma forma de proteger o ambiente. Para isso, têm trabalhado para evitar queimadas, reflorestar, implementar boas práticas de manejo das espécies e se organizar coletivamente. Entenderam que o bem-estar da comunidade está diretamente ligado à saúde do ecossistema.

Por meio do projeto “Fortalecimento estratégico em Áreas Naturais Protegidas”, promovido pela Comissão Nacional de Áreas Naturais Protegidas do México (CONANP) e pela FAO, Alondra e sua comunidade fortaleceram suas capacidades, criando uma rede de conservação, cultura e sustento. A iniciativa contribuiu para proteger 3,5 milhões de hectares, com 40 novos decretos de áreas protegidas e a certificação de mais de 635 mil hectares em 76 áreas destinadas voluntariamente à conservação.

As melíponas também estão amplamente presentes na Amazônia. Em meio a esse ecossistema, próximo ao rio Beni, na Bolívia, é possível encontrar ao menos sete gêneros dessas abelhas em estado natural em um Eco Refúgio de abelhas nativas. Nove estudantes do Instituto Tecnológico “San Buenaventura”, no norte de La Paz, lideram esse programa.

Seu trabalho integra floresta, abelhas e água. No refúgio, há espécies como a Melipona ebúrnea, conhecida por seu tamanho e produção de mel; a Tetragonisca angustula (“Senhorita”), pequena e sem ferrão; a Plebeia spp (“periquita”); e as Mamuris, fundamentais para a polinização da castanha amazônica — motor econômico da região.

Além disso, as melíponas são aliadas da pecuária boliviana, pois polinizam forrageiras, melhoram a qualidade das pastagens e a saúde do gado. Também contribuem para o ciclo da água e, após incêndios ou desmatamento, atuam como regeneradoras naturais dos ecossistemas.

O grupo de estudantes conta com assessoria técnica da FAO, essencial para o processo inovador de meliponicultura que desenvolvem. O Eco Refúgio também recebe apoio do governo municipal e do projeto “Florestas Sustentáveis” da FAO.

Aprender com a colmeia para transformar o futuro Em todas essas experiências, emerge um ponto em comum: a interdependência entre seres humanos, abelhas e ecossistemas. Os polinizadores nos ensinam que a cooperação é mais poderosa que o esforço individual, que o equilíbrio com a natureza é indispensável e que o bem-estar coletivo depende de cada ação.

As histórias da Argentina, México, Bolívia e Equador mostram que, quando comunidades — especialmente mulheres — se tornam protagonistas, a apicultura e a meliponicultura vão além da produção e se tornam motores de mudança social e ambiental.

Com o apoio da FAO, essas iniciativas protegem os polinizadores e, ao mesmo tempo, fortalecem economias locais, promovem a equidade e regeneram territórios.

Fonte: FAO.

ImpulsoVet

Revista Eletrônica Médica Veterinária.