Você já conheceu um “cavalo surdo”?

Você já conheceu um “cavalo surdo”?

Talvez sim. Talvez você já montou um.
Ou quem sabe esteja montando um agora, sem perceber.

A cena é comum: o cavaleiro pede, repete, aperta, bate a perna, grita “trote!”, “vai!”, “anda, burro!”, coloca espora, chicote… e nada acontece. O cavalo não se move. Ou se move mal. Lento. Apático. Parece que não ouve.

E está mesmo.

Mas não por mal.
Não porque é teimoso.
Mas porque está confuso.

O cavalo sente. Sente muito mais do que a gente imagina.
A pele dele é sensível a ponto de identificar a diferença entre uma gota de chuva e o toque de uma mosca.
O problema não é que ele não sente sua perna.
O problema é que ele não entende o que você está dizendo com ela.

Na tentativa de se fazer entender, o cavaleiro aumenta a intensidade.
Mais força. Mais pressão.
Só que comunicação não se resolve com volume — se resolve com clareza.

Cavalos são mestres do silêncio.
Eles não escutam com os ouvidos — escutam com o corpo.
Com o olhar. Com a energia. Com a coerência entre o que você diz, pensa e sente.

E quando essa coerência se perde — quando a perna diz uma coisa, a rédea diz outra, e o seu corpo ainda está tentando se equilibrar — o cavalo faz o que qualquer ser vivo faz diante do excesso de ruído:
ele se desliga.

Ele se desliga para se proteger.
E ele não sabe mais o que você está pedindo.
Então ele para de responder. Ele para de escutar.
Não porque não pode — mas porque já tentou tantas vezes, e foi tão punido por não acertar, que agora ele prefere o silêncio.

É aí que nasce o “cavalo surdo”.

Mas o cavalo surdo não nasce assim. Ele é construído.
Com excesso.
Com impaciência.

A boa notícia?
Se ele foi construído, ele pode ser reconstruído.
Basta que alguém esteja disposto a reaprender a linguagem do cavalo.
E para isso, é preciso menos força e mais consciência.
Menos pressa e mais escuta.
Menos ego e mais parceria.

Você já viveu isso? Já teve essa sensação de que o cavalo não te responde?

Mayara Verde.

Mayara Verde

Fisioterapeuta, Instrutora de equitação, docente, palestrante, pós graduada (USP), Steward FEI nos Jogos Paraolímpicos 2016, CBH, licenciada ANDE Brasil, ministra cursos IMV, FP Hipismo e CP de Hipismo.