FAO lança diretrizes para combate a doenças transmitidas por carrapatos com controle sustentável.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em parceria com a Fundação Gates, lançou as Diretrizes para o Controle Sustentável de Carrapatos e Gestão da Resistência a Carrapaticidas em Animais de Produção. O anúncio foi feito durante um simpósio de alto nível na 30ª Conferência da Associação Mundial para o Avanço da Parasitologia Veterinária (WAAVP 2025), o mais importante evento internacional dedicado à saúde animal e às doenças parasitárias, com impacto direto na saúde humana, este ano realizado em Curitiba (PR), de 17 a 21 de agosto.
As diretrizes são uma resposta a uma ameaça crescente: as doenças transmitidas por carrapatos, que atingem 80% do rebanho bovino mundial e geram perdas econômicas estimadas entre USD 22 e 30 bilhões por ano. O simpósio reuniu pesquisadores, formuladores de políticas públicas, profissionais da saúde animal e parceiros internacionais para debater estratégias práticas de implementação e colaboração multissetorial.
Ameaça global exige ação imediata
A resistência aos carrapaticidas está se espalhando rapidamente, exigindo novas abordagens sustentáveis para o controle de carrapatos – os artrópodes mais danosos à produção animal. Em áreas de alta infestação, o número pode chegar a 2 mil carrapatos por animal. Uma única fêmea engurgitada pode causar a perda de 1 grama de peso por dia em bovinos, resultando em até 600 litros de leite a menos por lactação (300 dias).
Segundo Thanawat Tiensin, Diretor da Divisão de Produção e Saúde Animal da FAO, “essas diretrizes representam um marco fundamental para proteger a saúde dos animais e garantir práticas agrícolas sustentáveis, especialmente em regiões tropicais e subtropicais”.
Novo modelo: Manejo Integrado de Carrapatos (MIC)
As diretrizes propõem o Manejo Integrado de Carrapatos (MIC) como alternativa sustentável ao uso excessivo de químicos. A estratégia combina múltiplas práticas adaptadas às condições locais, como:
- Boas práticas de manejo e pastoreio;
- Vacinas contra carrapatos e controle biológico;
- Uso estratégico e responsável de carrapaticidas de qualidade;
- Manejo ambiental e das pastagens;
- Remoção manual e seleção genética de hospedeiros; e,
- Diagnóstico e vigilância epidemiológica aprimorados.
Combate à resistência aos carrapaticidas
Um dos focos centrais das diretrizes é conter a resistência aos carrapaticidas, provocada pela exposição repetida de carrapatos a tratamentos químicos. Fatores agravantes incluem:
- Uso excessivo e repetitivo de produtos da mesma classe química;
- Aplicações incorretas;
- Produtos falsificados ou de baixa qualidade;
- Falta de sistemas adequados de diagnóstico e vigilância.
Laetitia Lempereur, especialista da FAO em resistência parasitária, destaca que o documento fornece estratégias abrangentes para monitorar, prevenir e gerenciar a resistência, incentivando métodos alternativos que preservem a saúde animal, humana e ambiental.
Cinco prioridades estratégicas globais
As diretrizes estabelecem cinco frentes de ação prioritárias para o controle sustentável de carrapatos e da resistência a carrapaticidas:
- Diagnóstico e vigilância: Sistemas robustos para monitoramento de doenças, vetores e padrões de resistência, incorporando dados ambientais e modelos preditivos.
- Boas práticas e capacitação: Fortalecimento dos serviços veterinários e integração das ciências sociais para garantir aceitação e sustentabilidade dos programas.
- Regulação adaptativa: Parceria com fabricantes, órgãos reguladores e organizações multilaterais para harmonizar normas e garantir produtos seguros e eficazes.
- Pesquisa e inovação: Investimentos em biotecnologia, novas ferramentas diagnósticas, vacinas, controle genético dos carrapatos e genética dos hospedeiros.
- Engajamento de partes interessadas: Promoção de parcerias público-privadas para soluções sustentáveis do ponto de vista econômico, social e ambiental.
Mercado global e lacunas de pesquisa
O mercado de saúde animal, avaliado em USD 33,5 bilhões, tem os parasiticidas como seu segundo maior segmento (23% do total). Com crescimento anual médio de 6%, o setor demanda soluções sustentáveis e eficientes.
As diretrizes identificam áreas prioritárias para pesquisa:
- Genoma dos carrapatos e biologia de endossimbiontes;
- Ferramentas diagnósticas rápidas e sensíveis;
- Sistemas de vigilância e previsão inovadores;
- Desenvolvimento de biofármacos, incluindo vacinas anti-carrapato;
- Validação de métodos eficazes, seguros e acessíveis;
- Avaliações socioeconômicas para embasar políticas públicas.
Segurança alimentar e saúde pública em foco
Além dos impactos na produção, o documento ressalta o risco à saúde humana. Cerca de 80% da população mundial está exposta a doenças transmitidas por vetores, que causam quase 1 milhão de mortes por ano. O controle de carrapatos em animais também protege contra zoonoses como febre hemorrágica da Crimeia-Congo, febre Q e anaplasmose.
Próximos passos
As Diretrizes da FAO para o Controle Sustentável de Carrapatos e Gestão da Resistência a Carrapaticidas estão disponíveis nos canais oficiais da FAO. A organização também lançará uma Comunidade de Prática sobre Resistência a Carrapaticidas, promovendo a troca contínua de conhecimento entre os setores envolvidos.
O documento inclui orientações detalhadas sobre biologia dos carrapatos, transmissão de doenças, impactos econômicos, estratégias de manejo integrado, monitoramento de resistência e abordagens intersetoriais de saúde (One Health).
📎 Para mais informações:
- Divisão de Produção e Saúde Animal da FAO
- Conferência WAAVP 2025
Fonte: FAO.







